segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Westmale e La Trappe...




Mercado das pulgas em Gent
Difícil ir embora de Gent. Domingo de manhã andando pela cidade demos de cara com uma feira de antiguidades, misturada com brechó. Temos certa compulsão por estas feiras. Comprei dois saca-rolhas antigos (coleciono e boto na parede do meu bar). Para onde vamos sempre costumamos frequentar essas feiras. Inclusive por aqui na Praça XV aos sábados e na rua do Lavradio no primeiro sábado de cada mês. Acho um programão. Bom, enfim, depois de uma perambulada pela cidade voltamos para o hotel pegamos o carro e rumamos para a Holanda para a La Trappe, passando pela Wetsmalle.
O mosteiro de Westmalle tornou-se uma abadia trapista em 1836, ano em que os monges começaram a fabricar as cervejas, passando a vende-las no portão cerca de vinte anos depois. Hoje a abadia opera uma das mais modernas cervejarias do mundo. A Westmalle estabeleceu um novo padrão de ales de abadia, quando introduziu os estilos Dubbel e Tripel em 1930. Após um refinamento da receita  em 1956, as cervejas permaneceram virtualmente inalteradas até os dias de hoje.
O bar em frente a abadia, o Cafe Trappisten é bonito, sofisticado e cheio. Tomamos na pressão, a Dubbel, a Triple e muitas pessoas pediam um copo meio a meio...pedimos também, mais por curiosidade, mas acho que há uma perda das características de cada uma. Não tinha a Extra com um teor alcóolico menor (5,7%) que é fabricada duas vezes por ano e só é comercializada ali. Cerveja, queijo (bom, mas nada que chegue perto dos de Chimay...), fotos e pé na estrada rumo a única cervejaria trapista fora da Bélgica, a Koninghoeven, mais conhecida como  La Trappe.


A dubble e a tripple


Estacionamento de bicicleta em frente ao Cafe

Em frente a Abadia
A La trappe, das trapistas que visitamos, a mais aberta. Quando chegamos, a última visita guiada já tinha sido realizada. Entramos e logo no início a lojinha com livros, santinhos, pratos, copos, cervejas, mel, queijo, geléia, terço etc,etc...tudo isso vendido pelos próprios monges com suas roupas características. Confesso que achei estranho, pelo o que a gente viu e ouve falar das outras abadias, onde os monges se isolam completamente do mundo exterior. Depois que saímos da loja e nos dirigimos ao restaurante, passando por dentro da abadia, aliás ambiente muito bonito, escutamos uma conversa entre dois brasileiros :
- Extremamente comercial!! Foge completamente do propósito. Não ficaria aqui, disse um.
- Muito diferente de Roquefort, respondeu outro.
Não resistindo entrei na conversa: desculpe, mas vocês ficaram na Abadia de Roquefort? Eles estavam passando uma temporada na Holanda, a trabalho, e tinham interesse por meditação, vida espiritual dos monges e segundo suas próprias palavras estavam querendo dar uma desestressada e escreveram para abadia. Qualquer um pode conseguir se alojar nas próprias abadias passando um tempo, seguindo e realizando a rotina dos monges...sem pagar nada ou pagando o que puder. Assim ficaram lá e segundo eles, foi extremamente interessante. Morremos de rir quando um deles quis deixar claro que eles eram apenas amigos, não formavam um casal  e tão pouco queriam se tornar monges ...
Li que esse monastério (La Trappe) teve problemas para recrutar novos monges, e este foi um dos fatores que levaram a venda desta cervejaria para a Bavaria. Entretanto a fabricação das cervejas ainda é realizada dentro da abadia sob supervisão dos monges. Tomamos uma Triple, uma Quadrupel e uma  Isido’r. Todas tiradas na pressão. Maravilhosas! Essa última criada em homenagem ao frade Isidorus Laaber que  iniciou a produção das cervejas La Trappe a 125 anos atrás.
Anoiteceu, fazia frio e nos nossos planos tínhamos que dormir em Bruxelas, porque o nosso voo ia sair de manhã pra Nova York. Jantamos em Tilburg em um restaurante japonês acompanhado de sakê...após tomar as La Trappes, nada de Kirin, não é mesmo!
Voltando pela estrada fizemos planos de voltar breve...ficaram faltando muitas...Orval, Roquefort, Achel só para citar as trapistas...
Saudades de Bianca e Rafael, nossos filhos...Chegamos em Bruxelas a tempo de acompanhar pela internet a vitória do meu Vasco sobre o Botafogo pelo Brasileirão...

Estrada em frente a Abadia


Monges ao fundo...boas vendas

Tripple,  Dubbel e Isido'r


Huyghe, delirium...

Lúpulo
"Lúpulo é uma liana européia da espécie Humulus lupulus, da família Cannabaceae (a mesma da maconha). O lúpulo é tradicionalmente usado, junto com o malte (grão malteado), a água e o levedo, na fabricação do chopp e da cerveja. No calor do cozimento da mistura, o lúpulo libera suas resinas de sabor amargo, dando à cerveja sabor característico."                                                                                   



Por volta de dezessete horas chegamos na cervejaria Huyghe. Será que já está fechado? pensei eu. Mais uma vez, sem agendar nada, paramos o carro e fomos entrando. Subimos uma escada e dei de cara com uma sala de degustação bem transada e um senhor bastante receptivo ficou extremamente surpreso quando nos apresentamos como brasileiros, que estávamos ali para conhecer a cervejaria. Ele trabalhava como guia da cervejaria e fazia o tour na língua flamenga. Vocês no Brasil conhecem a Delirium?! Claro, respondi eu com um certo ar blasé, como se fosse óbvio e como se aqui no Brasil todo mundo conhecesse e tomasse, ao invés de Brahma, Skol...Ele saiu repetindo em alto e bom som: é do Brasil, conhecem as nossas cervejas e voltou falando que ia haver uma visita guiada em quarenta minutos para um grupo de adolescentes alemães (lá a maioridade para começar a beber é com dezesseis anos) e se quiséssemos poderíamos participar e a visita guiada iria ser feita em inglês. Demorou...
Enquanto esperávamos a visita,  o guia flamengo (essa palavra me dá arrepio!) e o mestre-cervejeiro que tinha acabado de largar o serviço (ele larga o trabalho e toma uma cerveja...) se juntou a nós e nos levou para antiga sala de brasagem e nos explicou como era o processo de fabricação da cerveja antigamente assim como o significado das  ilustrações antigas que decoravam o lugar.
A cervejaria Huyghe, cujo o símbolo é o elefantinho rosa, é uma cervejaria regional de grande porte que produz cervejas de alta e baixa fermentação. Nos últimos anos, tem diversificado sua produção, fabricando cervejas sem glúten, com ingredientes exóticos como coco e óleo de dendê e cervejas frutadas de baixo teor alcóolico. Dessas nenhuma me agrada. Em compensação a Delirium Tremens blond com teor alc. de 8,5%  e La Guilhotine também de 8,5%, mais amarga, desenvolvida para comemorar o 200º aniversário da revolução francesa em 1989, são as minhas preferidas.
Ao final da visita guiada, após a degustação final, percebemos que o espaço ao lado tinha sido alugado para uma festa de criança. Cachorro quente e pipoca para a criançada e Delirium para os adultos...Nada mal!
Pernoitamos em Gent, uma cidade medieval extremamente bem conservada que oferece uma variedade de lugares interessantes: canais, castelo medieval, museus, conventos, igrejas e prédios históricos. No meu modo de ver tão interessante quanto Brugges...A cidade estava lotada, pois tinha um festival de música na cidade e conseguir um quarto não foi fácil...Jantamos em um restaurante marroquino de frente para o canal tomando uma Westmalle blond, aliás o nosso próximo destino...


O guia flamengo e o mestre-cervejeiro

Antiga sala de brassagem e as figuras ao fundo

Antiga sala de brassagem, as figuras ao fundo e eu

Vai começar o tour com a garotada 


Daqui vai para o mundo inteiro, inclusive lá prá casa

A nova sala de brassagem -caldeiras em aço inox.

Vida dura de puxador de carroça

Westvleteren e St. Bernardus...



        "O rei de Flandres, na Holanda do século XII, é considerado o santo protetor dos cervejeiros."
                                                            São Grambinus


Sábado de manhã, na Grand Place de Tornai tinha uma feira enorme de roupas, sapatos de gosto bem duvidoso. Demos uma volta e já ansiosamente partimos para a abadia de São Sisto de Westvleteren, em direção a cerveja considerada senão a melhor, uma das melhores do mundo.
Desde o seu início em 1839, sempre teve a menor produção entre as cervejarias trapistas. Os monges vendem as cervejas, na porta da abadia, mediante reserva telefônica e a informação do  número da placa do carro, e dizem, que mesmo assim de má vontade, como se quisessem enfatizar o fato de que produzem cervejas para que possam rezar, em lugar de rezarem para que consigam vender suas cervejas. Mas enfim, as cervejas são consideradas tão boas que é aconselhável bebe-las rezando...
O restaurante-bar  da  abadia estava bastante cheio, era sábado e muitos belgas de outros lugares da Bélgica aproveitam o dia e vão até lá para almoçarem e fazer um programa de fim de semana. Sentamos em uma mesa do lado de dois casais belgas e acabamos conversando bastante. Eles surpresos, dois brasileiros por ali vindos de tão longe...Claro que eles ficam curiosos em saber mais a respeito do Brasil, e em particular do Rio de Janeiro. E não tem outra coisa diferente para se dizer das maravilhas naturais do Rio: praia, montanha, clima etcetc...até que vem a pergunta fatal e não era a primeira vez que tinham me feito: mas é seguro para irmos até lá por conta própria? Vem um monte de coisa na minha cabeça, passam alguns segundos  antes de responder de uma maneira sincera, e de uma forma meio triste, que o ideal seria através de uma excursão pelo menos da primeira vez, para um reconhecimento das peculiaridades que o nosso país apresenta...
Após o ritual de tomarmos as três cervejas: a Blond 5,8%, a Extra 8% e a  Westvleteren abt 12 com teor alc. de 10,2%, todas muito especiais, nos despedimos e eles nos aconselharam a passar pela cervejaria Sint Bernardus a apenas 10 minutos dali e que fabricavam cervejas muito similares a St. Sixtus. Foi o nosso próximo destino...


Venda da cerveja somente com reserva...

Entrada proibida


Santa Cerveja



3,70$  -  4,20$  -  4,70$E  respectivamente...
De graça em comparação com os preços daqui de fora, quando se acha
 

A cervejaria Sint Bernardus deslanchou depois da segunda guerra mundial, em 1946, quando começou a produzir a linha de cervejas St. Sixtus para o mosteiro  trapista Westvleteren até 1992 quando o contrato expirou. Pouco depois os trapistas entraram com um processo contra a cervejaria por continuar usando o nome St. Sixtus e a imagem do monge nos rótulos. Dizem que depois que perdeu, a cervejaria  St. Bernardus já mudou de rótulo umas cinco vezes...
Tem uma pousada ao lado da cervejaria. Estacionamos o carro e nos apresentamos na recepção, falamos que a gente estava de passagem e paramos apenas para conhecer. A senhora que nos recebeu, bastante receptiva, se desculpou dizendo que o hotel estava lotado, não tinha mais vaga e perguntou se não queríamos entrar e tomar uma cerveja. Já que ela insiste...

Uma de cada vez, por favor!

Maior conforto, na recepção da pousada

Começamos a conversar e ela falou que a sua secretária, que é polonesa, falava português porque namorava um brasileiro que trabalhava na cervejaria. Logo ela chegou e se juntou a gente. Divertida, com um tremendo sotaque,  gastava todo o português polonizado ou o polonês aportuguesado que sabia...Perguntamos quanto tempo tinha de namoro com o brasileiro e ela falou que havia quase dois anos. Fala para o seu namorado que ele está te enrolando...voussê extá mi inrolamdu!” ela repetiu sem entender o que significava. Isso bradei eu, fala que ele vai entender. Não deu muito tempo, chega Bruno, um paranaense com quase dois metros de altura e assim que ele entrou na sala, ela foi logo falando a frase para ele. Ele soltou uma risada e perguntou quem tinha ensinado aquilo.  Bruno era muito simpático e estava na Bélgica a quase cinco anos, e no momento estava trabalhando como um faz tudo na cervejaria, tentando juntar dinheiro junto com ela para se casar. Voltar ao Brasil era uma hipótese. "Você tem que virar mestre-cervejeiro”, aconselhei em tom solene, ainda mais com o mercado que está se formando no Brasil com várias cervejas artesanais. Toda essa conversa regada a St. Bernardus ABT 10,5%  de teor alcoólico, para manter o padrão das trapistas da Westvleteren. Tomando devagar, degustando...conversa boa, bebida boa, mas era hora de partir e o nosso destino era pernoitar na cidade de Gent onde fica a cervejaria Huyghe. Delírium!




Ela fala um pouco de português...
Ele não fala nada de polonês...





Chimay e caminho para Westvleteren...


Charles De Gaulle


"A perfeição não pode ser concebida sem uma forte dose de egoísmo, orgulho, tenacidade e de cerveja ."
Charles De Gaulle


Alugamos um carro, deixamos Bruxelas e partimos para Chimay. Apesar de  feriado, a estrada estava bem tranquila. Tentamos com uma antecedência de 2 semanas nos hospedar no Albergue Poteaupré em  Chimay. Não havia mais vagas. Mas fomos mesmo assim para conhecer, era a nossa primeira experiência em visitar uma cervejaria trapista. Na verdade sabíamos que não poderíamos entrar, mas só o fato de estar ali do lado, no Albergue, já seria um programão! Até chegar lá, você tem a sensação de que  está sozinho fazendo o roteiro. Chegamos por volta do meio dia. Cerca de meia hora depois começou a chegar muita gente, famílias, casais, de modo que as treze já tinha fila de espera. Pedimos a degustação de cervejas e queijos...Estava maravilhoso!! Na lojinha do lado deu vontade de levar um monte de coisas (acessórios , queijos, cervejas, copos etc). Tiramos algumas fotos e partimos em direção a famosa Abadia de Westvleteren...
Chegando em Chimay
Estacionamento de Porsche em frente ao Auberge...

Claudia e as compras...
Degustação de queijos e cervejas...show!
No GPS a distância para St. Sixtus, marcava uma distância de 180 km, cerca de duas horas e pouco...Tínhamos informação de que no caminho havia uma excelente cervejaria, muito pouco conhecida por aqui, a Brasserie Dupont. Dentre as informações era que seu atual dono Olivier Dedeycker, retomou as atividades da fazenda, com produção de queijos junto com a cervejaria, que muitos afirmam como uma das melhores da Bélgica! Foi a nossa próxima parada. Como de praxe, um bar ao lado da cervejaria fechada (era feriado!), num lugar bucólico, uma senhora servindo, um senhor em pé bebendo, mais ninguém! Junta-se a esse quadro um casal de brasileiros, querendo conhecer esses sabores...pedimos para começar a cerveja na pressão Saison Dupont. Esta cerveja antigamente era produzida durante o inverno para ser consumida nos meses quentes do verão, o que explica o caráter seco, leve e refrescante. Fechamos com uma “Avec le bons voex”, sensacional! Era uma cerveja que era produzida para ser oferecida como presente de fim de ano para amigos e associados da cervejaria. Hoje é produzida comercialmente durante o ano todo. Ficamos com vontade de comprar uma caixa, mas pela impossibilidade de carregar, comprei mais duas garrafas para tomar mais tarde. Tomei uma e a outra trouxe para o Brasil mas ainda não tive coragem nem oportunidade de abrir, mas não vai demorar...Quando você estiver lendo provavelmente nós já bebemos! Saúde!




A dona do pedaço
Queria comprar uma caixa...excelente!

O bar em frente a cervejaria


Inusitado...ao lado da cervejaria


Saindo da Brasserie Dupont, continuamos em direção a Westvleteren, e na estrada passamos por Tournai, a mais antiga cidade da Bélgica. Entramos para conhecer e resolvemos pernoitar. A cidade é super-charmosa. Valeu muito à pena. 
Mules acompanhado com
 a cerveja da cidade...
Pelas ruas de Tournai
A Catedral de Notre Dame de Tournai ao fundo...patrimônio da Unesco

Grand Place  com a Beffroi de Tournai ao fundo


 "Beffroi" de Tournai ( Torre do Sino) é o mais antigo da Bélgica. Foi o rei de França, Philippe August, que autorizou a sua construção em 1188. Em conjunto com mais 55 Belfries existentes no Norte de França e na Belgica, foram reconhecidas como Património Mundial pela Unesco, devido ao papel que a sua construção desempenhou na independência da Flandres e das regiões vizinhas dos regimes feudais e de influência religiosa... tem 44 sinos que podem ser ouvidos em qualquer parte da cidade!










Arredores de Bruxelas...Moortgart, Boostels...




















Platão

"Era um homem sábio aquele que inventou a cerveja"
Platão


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Mantendo como base Bruxelas decidimos no segundo dia alugar um carro e tentar conhecer três cervejarias, bem perto uma da outra: Boostels, Moortgart, e Het Anker, nessa ordem.
Mais ou menos meia hora depois, seguindo o GPS, encontramos as primeiras placas da cervejaria...Palm. A Palm é uma das maiores cervejarias familiares independentes da Bélgica. Dizem os críticos que já foi líder de mercado e hoje tenta agradar consumidores casuais que exigem mais doçura e consumidores mais sérios que exigem mais caráter (lúpulo), ou seja bem comercial. Pesado! Como todas as cervejarias, ao lado tem um bar ou uma brasserie que serve as cervejas e com a Palm não era diferente. Apesar de não estar entre as minhas programadas, não resistimos e paramos para conhecer, e não nos arrependemos...




Após o reconhecimento do bar (onde tomamos duas cervejas) fomos até a fábrica do outo lado da rua.
Era mais ou menos 13 horas, e uma moça extremamente simpática falou que estava planejando abrir mais tarde, mas iria abrir a loja e a sala de degustação para conhecermos. Logo depois apareceu um senhor perguntando se iríamos fazer o tour pela cervejaria. Pensei,  e devido ao horário e pelo o que tínhamos programado, agradecemos o tour e ficamos um tempo na loja e na sala de degustação. Afinal, estávamos ansiosos para encontrar com ”Deus”...Karmeliet, Kwak e assim partimos em direção a Boostels .

Dez minutos depois, chegamos e enquanto Claudia me esperou no carro, fui entrando sem encontrar ninguém, até que achei um senhor trabalhando no escritório.  Me apresentei e perguntei pela possibilidade de conhecer a cervejaria. Ele falou que não, só agendando! Perguntei se não tinha uma loja ou um bar para degustar as cervejas e ele falou para eu seguir em frente e dobrar a esquerda...Dei uma volta inteira sem encontrar nada parecido e entrei numa porta branca e dei de cara com um vidro e um atendimento de escritório...Uma moça me atendeu, expliquei que queria comprar algumas coisas e ela me mostrou uma carta que tinha as cervejas com seus respectivos preços. Tudo para viajem...Perguntei se não tinha um bar onde eu pudesse tomar uma no local...ela respondeu que tinha vários,  ali por perto, mas nenhum que tinha relação direta com eles...E os acessórios, copos, placas etc? Ela me mostrou outra carta com os preços dos produtos e  que normalmente eram vendidos apenas para fornecedores, mas abriria uma exceção e que poderia me vender desde que tivesse no estoque, o que não era muito...Meio decepcionado, afinal deveria ter agendado a visita, me culpei e saí em direção a Moortgart...de Deus a Duvel...
Bem perto, chegamos logo na  cervejaria Moortgart, que completou 140 anos de vida em 2011, mantendo-se como uma empresa familiar e carregando uma história  riquíssima que vem sendo construída e passada de geração para geração.  Foi fundada em 1871 por Jan-Leonard Moortgat, descendente de uma família de cervejeiros. Essa cervejaria começou a chamar mais atenção a partir de 1923, quando foi criada a “Victory Ale” para celebrar o fim da primeira guerra mundial.
A cerveja era bastante peculiar e diferente de todas as produções na época. Teve um dia, durante uma degustação na cervejaria, que o sapateiro e amigo da família provou a cerveja e a definiu como o verdadeiro Diabo em forma de Cerveja, surgindo assim a marca “Duvel” (Diabo em flamengo).
Estacionamos o carro em frente a uma casa bonita muito bem cuidada, com uma estátua que depois soubemos que pertencia  a família dona da cervejaria. Fomos entrando e ao avistar a porta da lojinha de souvenirs  tentei entrar e percebi que estava... fechada! Um pouco apreensivo com medo que acontecesse a mesma coisa que tinha acontecido na Boostels fomos caminhando e entramos na sala de degustações que estava aberta, mas não tinha ninguém...passaram-se cinco minutos até que chegou um senhor muito simpático com um uniforme de trabalho e eu perguntei se estava fechado para visitação e ele gentilmente falou que tinha largado o serviço naquele momento, não sabia, mas perguntou se nós não tomaríamos uma cerveja. Enquanto tomávamos uma Duvel, desceu a escada uma senhora que ele nos apresentou como sua chefe. Chegou com um grupo que iria fazer uma visita guiada naquele momento e falou que poderíamos entrar nesse grupo. Só se for agora, pensei eu e no mesmo instante nos juntamos ao grupo...de brasileiros...dez paulistas amigos que uma vez por ano viajam juntos e estavam ali visitando a cervejaria. Imaginei a possibilidade de ser um grupo de argentinos...os paulistas eram bem divertidos e logo nos enturmamos. Após a visita pelas instalações fomos recebidos pelo presidente da empresa, que saiu do escritório para conversar sobre o Brasil, sobre o consumo dessas cervejas fortes no nosso clima e o desejo de entrar de uma maneira mais forte no nosso mercado. Tomamos todas, inclusive as La Choufe (que foi comprada pela Moortgart), à vontade! Já de noite, nos despedimos, e felizes voltamos para Bruxelas. A Het Anker ficou para uma outra vez...
Diretor executivo da Moortgart
Supervisionando a produção
O início do circuito
Nós e os paulistas

Camisa maneira


Bruxelas...Como Tudo começou!


William Shakespeare


"Um pouco de cerveja é um prato para um rei."
William Shakespeare







Tudo começou há mais de quinze anos atrás quando eu e minha mulher fomos pela primeira vez à Bélgica e fomos apresentados àquela quantidade e variedade de cervejas. Sentávamos no bar no cair da tarde e víamos senhoras respeitáveis que ao invés de estarem tomando o chá das cinco tomavam...cerveja. Cada um com seu copo característico e sabores os mais diferentes. Não sabíamos nem por onde começar e até então, o termo “trappist beer” era por nós desconhecidos. Feito por monges, é? Que interessante!

Xavier Depuydt
O tempo passou e abriu um bar na Barra da Tijuca de um belga com cervejas belgas das mais variadas e começamos a frequentar e a aprender com o Xavier Depuydt (esse belga já abrasileirado, acariocado com seu jeito típico) ensinando as características de cada cerveja, como tomar, como harmonizar e a nos divertir com as sua histórias...Não tinha como deixar de rir quando ele extremamente contrariado reclamava dos bebedores de cerveja do fim de semana que chegavam no bar e pediam a cerveja super-gelada e sem colarinho. Ele se recusava a servir assim, e o cara acabava indo embora chateado e ele mais ainda! Enfim, ele foi um dos responsáveis pelo nosso interesse por essas cervejas, e tenho certeza que graças à ele uma série de pessoas passaram a se interessar pelo assunto também.

Grand Place
Por tudo isso, nós que há muito tempo pensávamos em fazer um tour de cerveja, tiramos alguns dias (menos do que pretendíamos) e partimos para a Bélgica para fazer esse trajeto escolhendo algumas cervejarias e bares pelo país. Como não tínhamos exatamente o roteiro pronto e quanto tempo ficaríamos em cada lugar, decidimos que não íamos agendar nenhuma visita específica, apenas iríamos e pronto! Assim foi feito e claro, o ponto de partida foi Bruxelas.

Não precisa nem dizer que andar pela Grand Place e cercanias comendo o autêntico chocolate belga, tirar foto com a estátua do menino fazendo xixi, entrar na loja do Tintin, mesmo pra gente que já conhecia, acabam se tornando programas obrigatórios e prazerosos, um aquecimento para as paradas que viriam a seguir.

Começamos pelo bar Poechenellekelder, que fica quase em frente a fonte Manneken Pis. Eram 11 horas da manhã, o bar há pouco aberto, as pessoas ainda tomando café! O corpo ainda com o relógio biológico meio confuso, afinal tínhamos chegado exatamente naquele dia às sete da manhã, não estávamos preparados ainda para começar a tomar cerveja. Mas mesmo assim entramos munidos pela curiosidade que foi plenamente justificada quando nos deparamos com aquele ambiente interessante e cheio de histórias. O bar possui dois ambientes, um em cima e outro onde uma escada leva  a um lugar com uma decoração típica, como se fosse um teatro e com alguns bonecos ocupando mesas. Tiramos algumas fotos e combinamos que mais tarde voltaríamos, o que acabou não se concretizando. De qualquer maneira está anotado e faço questão de voltar em um futuro próximo...pela terceira vez! Na primeira, era 31 de dezembro e estava fechado! Essa foi a segunda...

Bar Poechenellekelder

Depois de bater perna na região, demos de frente com o famoso bar La Mort Subite, um magnífico bar em estilo Art Nouveau. O estabelecimento foi fundado em 1910, por Theophile Vossen, com o nome "La Cour Royale". O nome Morte Súbita nasceu em 1928. Era um bar bastante frequentado por funcionários de um banco que havia por perto e jogavam um jogo de cartas chamado 421, quando em um dia um dos jogadores ao perder, exclamou: - foi morte súbita. O termo pegou, mudando não só o nome do estabelecimento, como passou a dar nome às cervejas, o que perdura até hoje, inclusive administrado pelos bisnetos de Vossen, e é considerado como um bar dos mais tradicionais em Bruxelas. O ambiente te remete ao passado com os garçons extremamente solícitos caminhando pelo salão e anotando os pedidos. Lá tivemos a oportunidade de tomar uma cerveja artesanal, fermentada na garrafa, tomamos também a cerveja gueuze com o mesmo nome da cervejaria. Essa última, bem diferente, tipo sabor das cervejas “selvagens” que algumas pessoas amam ou simplesmente odeiam. Das que eu tive oportunidade de provar, a mais interessante foi a gueuze a base de pera.
Bar La Mort Subite

Dali partimos para mais uma caminhada que acabou terminando em direção ao super tradicional e imperdível bar Delirium Café com a sua incrível carta de cervejas. Depois que foi proibido o cigarro dentro do bar o ambiente melhorou consideravelmente... A primeira vez que estivemos lá o ar era irrespirável e mal se enxergava o lugar devido à fumaça. Tomamos claro, uma Delirium “on tap” e uma St Feullien grand cru. Estavam ótimas!

Delirium Café
Restaurante La Quinquilarie



Final da tarde, primeiro dia, jet leg, noite mal dormida... Precisávamos entrar no hotel e dar uma descansada para sairmos à noite para jantar. Fomos à um restaurante, o La Quinquilarie. Muito interessante, ambiente, comida e claro, harmonização com a cerveja...Valeu muito a pena! Recomendamos!